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Centro Iniciativa Jovem - CIJ da ADILO

09-05-2024

A sala de aula é a mesma de sempre. Mas tudo o resto é diferente. No quadro branco, a palavra “trabalho” ocupa o centro de uma nuvem de muitas outras palavras relacionadas com ela: medo, dúvida, pressão, horário, disciplina, dinheiro, desafio, consciência. No lugar da professora de Português, está Daniel Francisco, o rapper Deau. Nas cadeiras, alunos do 12.º ano da Escola Leonardo Coimbra Filho, no Porto, cumprem o desafio de escrever uma carta a eles mesmos com aquele esquema como inspiração. Hugo declara o bloqueio criativo. Escrever não é com ele — ou, pelo menos, é essa a sua convicção. Quando Deau oferece ajuda, é o primeiro a pôr o dedo no ar: “Não tenho ideias, não tenho imaginação.” De cócoras junto à secretária, o músico dá corda ao pensamento. Em poucos minutos, o aluno do curso profissional de Técnico do Desporto define uma narrativa: a carta será dirigida ao Hugo que sonha ser daqui a uns anos, um treinador de futebol. O encontro entre Deau e aquele grupo de jovens foi “fruto do acaso”. Ou talvez “consequência da escuta”. Quando o Teatro do Frio soube que o Centro de Iniciativa Jovem (CIJ) planeava reanimar a sua antiga rádio comunitária, pôs-se a magicar formas de trabalhar com eles para esse fim. E chegou à ideia de desafiar alguém da escrita criativa para dinamizar um projeto cultural com jovens da escola vizinha da associação e, a partir daí, criar um podcast e fazer um concerto. A escolha de rapper do Candal (Vila Nova de Gaia) nascido em 1988 fez-se com a ajuda do Centro de Iniciativa Jovem (CIJ), uma espécie de ATL para jovens e crianças a partir dos 11 anos, projeto da Agência de Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro (ADILO). “Disseram-nos que o Deau era o músico que ouviam e sabia falar para o coração deles.” Quem o explica é Paolo Andreoni, do Teatro do Frio, estrutura parceira do Cultura em Expansão responsável pelo polo da Pasteleira: “Há uma constante no nosso trabalho: pensar como podemos ter o CIJ connosco. Sem a parceria com a comunidade, não tem sentido. Seria programação artística pura e dura, não teria a intervenção social que também procuramos fazer.” O ponto de partida definido pelo Teatro do Frio era o lugar. Não apenas o território onde se vive, mas também o das emoções. Ou o lugar como forma de posicionamento no mundo. O título do projeto — Este Lugar que É o Meu — foi definido pela companhia. A partir daí, as decisões ficaram nas mãos de Deau.

Para programar as quatro sessões do projeto, o músico foi ao baú das memórias: “Tentei lembrar-me do miúdo que eu era e do que me despertou quando comecei a fazer música.” No primeiro encontro com os jovens, com idades compreendidas entre os 17 e os 20 anos, deixou claro o seu papel. “Não sou professor. Se chegasse aqui com muita preparação, ia sentir-me extremamente nervoso, porque ia ocupar um espaço que não tenho e tentar ser algo que não sou.” Estava criado o espaço para “perceber o que eles queriam e ir ao sabor deles”, conta Daniel num intervalo da terceira de quatro oficinas, integradas no Cultura em Expansão, projeto promovido pela Câmara do Porto desde 2014 para levar a cultura a lugares onde ela geralmente não chega. “Tentei escutar e ter ginga para ocupar algum espaço se as coisas corressem mal.” Mas não correram, atesta a professora de Português, Stephanie Silva: “Estão muito motivados. Até prescindem de dois intervalos para ficar a trabalhar. Nas aulas isto não acontece...” Para a docente, o benefício do projeto está escancarado: “Estão a trabalhar competências de Português, mesmo que não se apercebam disso.” A sua “busca de estratégias” para motivar os alunos — alguns repetentes, já num segundo curso ou vindos de outras escolas — é constante, mas as balizas dos planos curriculares estrangulam algumas ideias. Com Deau, nada disso existe. “Ele soube conquistá-los. Há uma interação efervescente.” Daniel Francisco confirma a leitura de Stephanie Silva. Se no início notava algum bloqueio associado ao “receio da avaliação”, o terreno tornou-se menos sinuoso depois de “desconstruir” isso. E a mensagem fluiu: “Quis passar-lhes a ideia de que tudo o que vivem é válido para se exprimirem.” Dez minutos de caminhada separam a escola e o CIJ. No bloco 15 do Bairro de Lordelo, Maria João dá as boas-vindas à associação inaugurada em 1993. Miguel, um dos monitores e frequentador do espaço uns anos antes, faz uma rápida visita ao espaço, com sala de computadores, de estudo, de artes, um estúdio de gravação, local para convívio com “matrecos” incluídos. “Podem aparecer quando quiserem e usar o espaço”, diz ao grupo de jovens. Ana Vieira, assistente social da ADILO há mais de duas décadas, já viu provas do poder daquele espaço de ocupação dos tempos livres, sobretudo com atividades culturais e desportivas. Paolo Andreoni também. “O CIJ é a alternativa que existe no bairro a outras dinâmicas”, aponta, referindo-se aos movimentos relacionados com o tráfico de droga. Numa das salas, uma mesa com toalha preta já tem em cima quatro microfones e um computador prontos a usar. O podcast vai começar a ser gravado. Fazem-se testes de som, partilham-se as primeiras ideias para o nome do podcast e inicia-se a gravação. Ainda com muita timidez. Deau espicaça a conversa: “Foi um dia normal de aulas? O que gostaram mais e menos?” Um dos participantes manifesta a admiração pelos improvisos mostrados por Deau minutos antes, quando, a partir da nuvem de palavras escrita no quadro branco, contou parte da sua história de vida ao som de uma batida. Sobre pontos “negativos”, garante nada ter a declarar. Hugo repete a ideia da falta de imaginação. “Mas estar em grupo ajudou-te?”, questiona o rapper. “Foi fixe, ajudou.” O tema volta às formas de expressão possíveis. E aos pontos de partida para essa inspiração. Da escola à família, das emoções aos sonhos, da forma de vestir às escolhas clubísticas. Um dos alunos acusa-se quando Deau pergunta se há benfiquistas entre o grupo. “Sentes-te à vontade para levar a camisola do Benfica para a escola?...” O jovem acena um sim, mas logo admite que a camisola vermelha é motivo para olhares alheios e provocações. Também essa decisão é uma forma de expressão — um lugar no mundo. “Tudo o que fazemos é um ato de coragem”, diz o rapper. Hora de jogar Tic Tac. Vira-se uma carta e têm de dizer palavras terminadas em “bro”. Vira-se outra e apostam em palavras começadas por “au”. Depois com “xo” no início, meio ou fim. É um jogo de palavras, interessante para ampliar vocabulário, treinar rimas, perceber semelhanças entre palavras. Outro “jogo” proposto por Deau teve abril como pano de fundo: Deau era a censura e os alunos tinham de passar uma mensagem aos amigos sem que ele detetasse o significado real. “É importante perceberem o quão difícil e corajoso era fazer isso.” Além do podcast, o projeto Este Lugar que É o Meu vai ter um “momento de devolução pública” destas oficinas, conta Paolo Andreoni. Um concerto com produção simples, no Bairro de Pinheiro Torres (29 de junho, 18h30), ao qual prefere chamar “festa”. O espetáculo de Deau integrará o que se passou nas sessões e pode ter os jovens como participantes — seja essa a vontade deles. “É tudo em construção”, aponta Paolo Andreoni, revelando a alegria de este projeto ter também aberto as portas da Escola Leonardo Coimbra Filho, com quem já têm um outro projeto em andamento: um laboratório de artes circenses. Aos esses, mas com foco para o rapper do Candal, geografia importante na sua biografia, tudo começou pelos sete ou oito anos. Também com um “acaso”. “Fui buscar o irmão do melhor amigo ao Arrábida Shopping e calhei num concerto dos Mind da Gap.” A música “irreverente” conquistou-o. Apaixonou-se pela cultura hip-hop, grafitti dos mais velhos incluídos. “Fui abençoado por estar no sítio certo na hora certa. Foi algo que pautou todo o meu crescimento.” Não foi só “bênção”. Nos anos 1990, não havia muitos exemplos de sucesso de gente a viver da música. Por isso, Daniel Francisco apostou num curso para assegurar o futuro. Nas férias, trabalhava em fábricas, como a da mãe, encadernadora (“tive a sorte de crescer entre livros”). A partir do 12.º, foi assistente de sala no Teatro Nacional de São João. Nas férias, ia para França trabalhar na construção civil. Pelo meio, licenciou-se em Saúde Ambiental. “A minha motivação era fazer um disco que me representasse a mim e aos meus”, conta. Chegou a viver apenas da música. Mas a pandemia acontece quando gravava o seu terceiro disco e mudou o rumo. “Aguentei um ano. Já tinha compromissos com outras pessoas.” Depois, foi procurar outro emprego para pagar contas e encontrou aquele onde permanece até hoje, numa empresa de vinhos do Porto. “Às vezes, o caminho é aos esses, mas o importante é não perder esse foco”, declara. Essa foi uma das mensagens transmitidas aos jovens da Escola Leonardo Coimbra: “Neste momento, estou a fazer várias coisas e, mesmo assim, não deixei de fazer o que gosto.” É uma alegria que Luana está a descobrir. Aos 19 anos, com um filho de 18 meses, está a fazer um estágio num lar de idosos no âmbito do curso de Técnica de Saúde na Escola Leonardo Coimbra Filho. Cuidar é o verbo dela. “Gosto muito de crianças e o meu sonho era trabalhar com isso. Mas descobri que também gosto de trabalhar com idosos.” O seu lugar ainda não está definido. Mas Luana percebeu, pelo menos, onde não quer estar: “Sei que não sou deste lugar”, diz, referindo-se ao bairro social onde mora. “Gostava de morar noutro sítio. Esse ambiente das drogas é muito difícil.” Palavra de quem, em criança, viveu na Torre 1 do Aleixo e está agora na Pasteleira. “Vi coisas complicadas, andei no psicólogo...” As oficinas com Deau e a escrita daí nascida têm sido, também, esse espaço terapêutico. “É uma reflexão sobre a vida que nem sempre é fiel àquilo que pensamos”, diz enquanto caminha de volta à escola. “Ele, literalmente, trouxe o que estava escondido dentro de nós.”

Notícia retirada do site jornal Público: https://www.publico.pt/2024/04/29/local/reportagem/rapper-deau-escola-pos-jovens-pensar-lugar-mundo-2087617 

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